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Coisas do Deserto
 

CELEBREM O MEMORIAL DAY!

Tragam flores para os túmulos e celebrem esse dia!

Tragam à memória os soldados americanos mortos em combate e honrem seus sepulcros!

Chorem sobre os mortos da América e finjam-se em Paz.

Hoje é a celebração do "Memorial Day"!

O que minha alma pode brindar???

Vejo o Iraque chorando suas perdas. Casas destruídas. Crianças mutiladas...

Quem chorará a morte de Hassan? Quem consolará o luto de Hadyja?

Onde depositaremos as coroas de flores?

Nossos mortos foram dilacerados pelas bombas...não temos onde chorar por eles.

Quem se lembrará dos inocentes assassinados?

Celebrem a morte dos soldados americanos, levem coroas de flores e façam discursos...

Celebrem o Memorial Day!

Deixem-me no Iraque sozinha, de mãos dadas com o esquecimento.

Não trago flores. Não celebro. 

Protesto emudecida em nome dos que nunca mais serão lembrados...dos que jamais serão celebrados.

Hoje é o Memorial Day!

 

Presidente Bush coloca flores no Túmulo do Soldado Desconhecido no Cemitério Nacional de Arlington (EUA)



 Escrito por Nurah às 21h56 [] [envie esta mensagem]



VOCÊ VOLTA AMANHÃ?

Numa cidadezinha ao norte do Iraque fomos abordados por uma família que pedia esmolas. Rapidamente meus amigos tiraram alguns trocados e deram à mulher.

Eu, pra variar, não possuia nem "um dinar".

Uma menina de aproximadamente 7 anos estendeu as mãozinhas em minha direção e sorriu. Usando a mesma linguagem de sinais, sorri me desculpando.

Ela era insistente! A mãozinha ficou lá estendida e o sorriso se alargava. Vasculhei minha bolsa na intenção de achar ao menos uma moedinha, mas não tinha nada!

Meio sem graça balancei a cabeça e ela recolheu a mãozinha sem desviar os olhos dos meus e sem deixar de sorrir. Que figurinha mais carismática!

Um véu sobre os cabelos, uma túnica surrada, descalça, pedindo esmolas em um país extremamente instável e ela ali, me olhando e sorrindo.

Peguei um pacote de bolachas já aberto e lhe ofereci. Parecia que ela havia ganho uma entrada franca para o paraíso!

A euforia tomou conta daquela "figura" que corria de um lado para o outro mostrando aos irmãos a "preciosidade".

Ela ria, gargalhava...e como se essa expressão fosse pouca, me mandava milhões de beijinhos. Beijava a palma das mãozinhas e assoprava em minha direção. Seus beijos alcançavam minha alma...

Enquanto o ônibus saía ela correu atrás de nós acenando, mandando beijos e sorrindo. Só fez uma pergunta que soa até hoje dentro de mim: Você volta amanhã?

Não respondi...apenas sorri e acenei pedindo a Deus que eu realmente pudesse voltar um dia com muito mais que um simples pacote de bolachas...

 

 



 Escrito por Nurah às 12h43 [] [envie esta mensagem]



A FLEXIBILIDADE HUMANA

Precisa-se de docilidade para ceder, curvar-se um pouco sem ver diminuído seu valor.

Não aprendemos á ver a vida com as lentes do outro. Temos dificuldade em aceitar as diferentes reações que as pessoas têm diante das circunstâncias. Temos sempre o dedo em riste, o pré julgamento e a sentença final: CULPADOS!

Ingênuamente esquecemos que julgamos baseados em nossos próprios conceitos...logo, quase sempre erramos.

Na cidade de Kerbala no Sul do Iraque todas as mulheres usavam o véu islâmico e a abaya negra. TODAS! Sabedoras disso, tratamos de nos vestir adequadamente para evitar constrangimentos, uma vez que tínhamos a intenção de visitar aquele lugar.

Todas as mulheres da nossa equipe colocaram as "vestes sagradas", menos a jovem Suher, uma árabe-cristã que se tornara uma companheira e intérprete em nossa agitada viagem pelo Iraque.

Diante daquele cenário de mulheres vestidas de negro, Suher se limitou a jogar um pano colorido sobre a cabeça que a fazia parecer tudo...menos uma "muçulmana xiita"

Ela andou pela cidade sagrada com um semblante desafiador, como se quisesse mostrar a todos que ela não era dali.

As atenções de todos se voltaram pra nossa equipe. Guardas iraquianos armados e irritadíssimos nos expulsaram de Kerbala.As armas encostavam em nossos corpos enquanto éramos obrigados a deixar a cidade apressadamente. Eu não podia acreditar na rebeldia de Suher!

Porque ela era tão teimosa? Tão intolerante? Custava apenas cobrir os cabelos por uma hora? Não...ela preferia expor toda a equipe ao perigo...

Eu estava furiosa!

Suher, diante da indignação de toda equipe apenas chorou, suas lágrimas porém, não me comoveram.

Eu esperava dela um pouco mais de flexibilidade...seria tudo tão mais fácil se ela apenas colocasse o véu...

Mal sabia eu, que o "Fácil" era fácil apenas sob o meu ponto de vista. Quando me permiti ouvir a história sob o prisma da minha querida amiga egípcia, percebi que estava exigindo dela muito mais do que poderia imaginar.

Suher nasceu no Cairo e cresceu em uma tranquila família cristã. Após a morte de seu pai, sua mãe decidiu se casar novamente, desta vez com um muçulmano tradicional. Automaticamente a mulher foi obrigada a abraçar a religião do marido e Suher decidiu sair de casa para não ser obrigada a "se converter".

Suher era livre e jamais se deixaria dominar. Possuidora de um espírito convicto e resignado foi brutalmente humilhada todas as vezes que visitou sua mãe.

Virou espetáculo da vizinhança. Ela era a cristã suja, com roupas indecentes (jeans e camiseta)...Uma infiel!

Diante da obrigatoriedade de colocar uma roupa islâmica, Suher se viu num impasse:  viver a liberdade pela qual havia lutado tanto ou ser vencida pela intolerância imposta pelos religiosos.

Ela optou pela liberdade de se expressar.

Vestir-se como uma muçulmana era uma concessão incabível para a pequena Suher.

Não a culpei. Ela precisaria de tempo para superar suas próprias limitações...

Chorando ela me pediu perdão. Chorando a perdoei.

Desde esse episódio, sigo tentando não me esquecer de ser sempre mais flexivel, mais dócil, mais maleável...Não apenas com os outros, mas comigo mesma. Busco minhas respostas e me atrevo sempre a olhar para minhas memórias, minhas dores e minhas marcas.

Vou dominando a mim mesma sabendo que ser flexível é uma virtude, e não ceder é igualmente uma qualidade ímpar...um tanto difícil é contudo, conseguir discernir claramente a hora de se resignar e o momento certo de curvar a fronte.

 

 



 Escrito por Nurah às 01h08 [] [envie esta mensagem]



O INÚTIL ZÉ NINGUÉM

 

Um sentimento de inutilidade me envolveu...

Onde eu estava com a cabeça quando aceitei ir para o Iraque?

Justo o Iraque???

Não falo árabe, meu inglês é ridículo e o país está um caos! Pra que me arriscar e gastar tanto dinheiro com a idéia de "reconstruir um país" se sou um simples “zé ninguém” perdido no meio do nada???

A inutilidade me assolou...e como ninguém podia entender minha dor, apenas chorei. Chorei uma manhã inteira lamentando meu fracasso.

O Iraque literalmente pegando fogo e eu ali de mãos atadas. Isso doía...

Naquela manhã nada podia me dar esperanças.

Eu estava consciente das minhas impossibilidades.

Minha inutilidade era um fato e contra ela não haviam argumentos.

O que eu havia esquecido enquanto me consumia em dores, era a existência de um Deus transformador de situações.

Ele estava lá o tempo todo e eu nem havia me dado conta...

Ouvi sobre o milagre da multiplicação. Minha situação era parecida: eu estava no deserto frente á uma multidão faminta de ajuda...Jesus também estava ali...eu só precisaria crer e apresentar a Ele os pães e os peixes!

Em lágrimas eu os apresentei. Nem pães eles eram, mas apenas ramos de trigo...Tudo o que eu tinha se resumia em uma “profissão de massagista”.

Incoerente, não?

Eu sei...eu sei...Parecia coisa de doido...mas o que eu ia fazer?

Eu não tinha mais nada pra dar!!!

O país estava detonando, eu não sabia falar nem um "oi" em árabe, mas mesmo assim eu queria que Deus fizesse um milagre através da minha profissão!

Com a ingenuidade de uma criança eu acreditei que Ele faria!

Desejei com todas as minhas forças que algo extraordinário acontecesse...

E sabe o que aconteceu? EU EXPERIMENTEI O MILAGRE DA MULTIPLICAÇÃO! 

Imagine!!! Um homem se aproximou e de repente ele era a segunda maior autoridade de esportes do Iraque...de repente ele me convidou para lecionar um curso de massagem na Universidade de Bagdá...De repente eu estava dentro de uma sala de aula recebida como a "doutora brasileira"...de repente apareceram intérpretes para que eu pudesse dar as aulas (lembre-se que eu continuava sem falar árabe)...De repente outro convite e eu já estava no Instituto de Fisioterapia de Bagdá...

Formei três turmas em Massagem Desportiva no Iraque!

E foi tudo tão de repente...

Alguns ramos de trigo, uma fé de criança e o Milagre!

Inexplicavelmente eu entrei para história do Iraque como a primeira estrangeira a lecionar na Universidade de Bagdá logo após a queda de Saddam Hussein. Incrível, não? O mais lindo é que foi tudo tão de repente!

Quanto ao sentimento de inutilidade não sei bem por onde anda.

Um dia ele saiu de mansinho e nunca mais voltou...

 



 Escrito por Nurah às 23h35 [] [envie esta mensagem]



UMA PÉROLA PARA TEHENI

Em uma tarde quente apreciando a calmaria do mar na cidade de Basrah ao sul do Iraque, conhecemos Teheni.

Seu pai, apesar de extremamente pobre, não deixara de lado a excelente hospitalidade árabe. Nos vendo, logo tratou de providenciar uma acolhida calorosa nos conduzindo á  sua casa minúscula e desprovida de móveis.

Nos acomodamos nos tapetes para apreciar o chá de "Boas Vindas" e conversamos como velhos conhecidos.

No canto, acuada e tímida se encontrava a miúda Teheni. Para mim ela era apenas uma criança iraquiana com um futuro obscuro em meio a tempestade da guerra. Para Deus Teheni significava muito mais...

Em meio às apresentações, um choque! A mãe de Teheni de maneira inconsequente declarou: -"Teheni significa parabéns ou congratulações...é um nome muito bonito, pena que o rosto de minha filha não seja como seu nome...olhem como ela é feia"!

 Todos os olhares se voltaram para a pequena que em meio ao silêncio mórbido apenas abaixou os olhos envergonhada...Teheni chorava.

Eu não sabia o que fazer naquela hora, a situação era terrível, porém Deus não havia perdido o controle das coisas. Como sempre, Ele tinha algo reservado para aquela tarde...

Uma de nossas amigas num impulso de amor e compaixão se aproximou da triste pequenina e com voz suave acrescentou: "Teheni, existe uma pessoa que te ama tanto...Pra Ele você é mais importante que o ouro e mais linda que uma flor..."

Apesar do silêncio constrangedor que ainda pairava minha amiga valentemente continuou:

"Deus te ama Teheni e para provar a você isso Ele me mandou te entregar um presente..."

Nos entreolhamos preocupados com o rumo daquela conversa...mas a cada momento ela se tornava mais interessante:

 -"Teheni (continuou), esse anel que tenho no dedo foi um presente que ganhei de uma pessoa muito importante pra mim. Eu nunca o tiraria do dedo, mas hoje Deus me manda lhe dar essa pérola. Ela será sua para que você se lembre desse dia...pra que você saiba que é amada, que é uma linda menina! Todas as vezes que você se sentir triste ou sozinha, você vai poder olhar para essa pérola e se lembrar do quanto é amada por Deus"!

O amor de Deus enchia aquele lugar...Meu coração batia forte de paixão e de orgulho por pertencer a um Deus tão especial e maravilhoso. Era um privilégio estar vivendo aquele momento...um privilégio estar presenciando o amor de Deus sendo derramado de forma abundante na vida de uma pobre menina iraquiana.

Eu só tinha lágrimas...

Teheni só sorrisos!

Teheni de blusa vermelha segurando o anel!

 



 Escrito por Nurah às 12h05 [] [envie esta mensagem]



A MISERICÓRDIA DE SATANÁS

Estamos na cidade de Basrah, ao Sul do Iraque, hospedados em um hotel imundo com fiação exposta, lençóis manchados e muitos fios de cabelos entrelaçados no edredon encardido. No banheiro não existe água e nem vestígios do essencial papel higiênico. Bem...ao menos existe um vaso sanitário!

Dentro do guarda-roupa existem restos de cigarro e na cozinha do "hotel" muita louça suja empilhada. Crostas de sujeira se acumulam no fundo dos copos e os garfos exibem marcas de outras refeições. É tudo tão precário e sujo que vai além do nosso poder de protestar. Nos resta comer e cair exaustos na cama imunda.

Errôneamente acreditava que traria de Basrah apenas a imagem do "hotel dos horrores", mas algo mais forte gravaria minha mente e meu coração como a imagem do verdadeiro "horror". Escrito em árabe e exposto na praça principal da cidade li a frase "Satanás é mais misericordioso que Saddam Hussein".

Fiquei chocada, impressionada, arrasada! Meu coração experimentou um turbilhão de sentimentos.

Que tipo de crueldade cometida por esse homem o transformaria em alguém menos misericordioso que o próprio satanás? Eu não sabia o que pensar...

Lembrei das famílias, dos homens de bem, das crianças, todos vivendo com medo, ameaçados e perseguidos. Imaginei suas dores, seus temores e seus grilhões. Meu pensamento tentava atingir a dimensão da maldade de Saddam e depois de refletir muito conclui que mesmo com todos os pecados do mundo, ele jamais poderia ser pior que Satanás. Mas para os iraquianos ele era. E isso me deixava perplexa!

Eu quis proclamar Jesus aos quatro quantos do Iraque! Mostrar à eles Àquele cuja misericórdia dura para sempre!

Eu amei o Iraque. Tive compaixão da terra e por um instante meu coração era o mesmo do Pai: todo amor, todo paixão, todo misericórdia!

Desejei secar as lágrimas, aplacar a ira e consolar com amor. Fui envolvida pela necessidade e pela urgência da obra missionária. Me senti chamada, impelida e necessária. Me senti disposta, desprendida e entregue à vontade do meu Amado.

Eis-me aqui para sempre...para onde quiseres me mandar, para fazer tudo o que desejares da minha vida, desde que isso seja para sua glória, para sua honra e para o engrandecimento do Teu Santo Nome. Nome Bendito e Misericordioso!

Eis-me aqui!

 "Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e o Deus de toda consolação"  (II Corintios 1:3)

 

          "Satanás é mais misericordioso que Saddam Hussein"   

 



 Escrito por Nurah às 12h25 [] [envie esta mensagem]